sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A magia da arruda

Não há, seguramente, uma planta que desafie melhor os céticos de plantão, aqueles cuja postura científica os obriga a desconfiar das realidades metafísicas
JEAN-BAPTISTE DEBRET: O vendedor de arruda. Litogravura do tomo III da Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil
JEAN-BAPTISTE DEBRET: O vendedor de arruda. Litogravura do tomo III da Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil
Tive a oportunidade de assistir, há bastante tempo, uma palestra onde um especialista questionava as crendices e superstições apoiado nas certezas da ciência e do conhecimento acadêmico. Durante uma hora debochou, ridicularizando o que ele achava de evidências insuficientes e de argumentações fantasiosas do arco da velha. Discutiu sobre o possível efeito das velas acessas em qualquer cerimônia, zombou do efeito das flores, falou dos amuletos, dos despachos e de uma série de práticas sincréticas que herdamos da miscigenação africana e indígena.
Confesso que tive que concordar com quase tudo que ele afirmara. Achei fascinantes as colocações onde justificava que, na maioria das vezes, as crenças batem de frente com a racionalidade e a lógica, fundamentadas nas tradições populares e influenciadas pelo medo.
A explanação acabou e o melhor momento desses eventos, geralmente, é a hora do café, onde as pessoas debatem livremente sobre o tema. Meio que na manhã, driblando outras pessoas que o estavam cumprimentado, me aproximei e perguntei ao palestrante: e a arruda? O que me diz da arruda? Ele, olhando para os lados discretamente, me diz ao pé do ouvido: “Essa planta é uma exceção, não há uma explicação plausível que defina seu poder, aceito por todas as culturas”.
Arruda
E é verdade, no mundo todo a arruda tem a mesma conotação. Os chineses, por exemplo, desde épocas remotas a usavam para combater o paludismo. Na Roma Antiga era costume, entre os juízes, usá-la escondida para evitar contaminações de ordem moral com os réus, mas também era comum condimentar carnes com ela e, desde a Idade Média, a grappa, uma bebida feita a partir do bagaço da uva é aromatizada, em alguns casos, com arruda, pelo seu efeito digestivo. A própria Igreja de Roma, no início da era cristã, fazia raminhos de arruda para espargir água-benta nos fiéis.
Grappa com um raminho de arruda
Grappa com um raminho de arruda
Na Grécia, desde os primeiros Jogos Olímpicos em 776 a. C. era usada para afastar doenças contagiosas. Hipócrates, considerado por muitos uma das figuras mais importantes na história da medicina, a recomendava para aliviar dores. Uma crença popular vinda junto com os escravos africanos no período colonial , recomenda que os homens usem um raminho das folhas por cima da orelha, escondida entre os cabelos, ou mesmo na boca, ou que um galho de arruda seja mantido na senzala, para espantar os maus espíritos e o mau-olhado.
Os sacerdotes druidas, na cultura celta, a utilizavam para benzer os doentes, acreditando que a planta tinha o poder de afastar qualquer malefício. Da mesma forma pensavam hebreus, caldeus e egípcios. Por aqui no continente americano os indígenas, além de reconhecerem seus poderes terapêuticos, a usam para feitiços que, garantem, seguram o ser amado.
É cultivada facilmente em todo o mundo, a pleno sol ou meia-sombra, em solos pobres e não muito ácidos. A multiplicação pode ser feita por estacas maduras e no inverno é interessante podá-la, deixando-a uns 10 cm do solo estimulando, dessa maneira, o crescimento mais denso e vigoroso na primavera.
A arruda-fedorenta, arruda-doméstica, arruda-dos-jardins, ruta-de-cheiro-forte, como é chamada em algumas regiões, alcança um metro de altura. Suas flores são amarelas e é um “santo remédio ” no combate de sarna, piolhos e pulgas, além de irritações oculares.Link

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